Investigação da Polícia Federal e do MPF aponta esquema milionário durante administração de organização social no hospital municipal de Aparecida entre 2020 e 2022, período crítico da pandemia
A gestão do Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia (HMAP) durante o governo do ex-prefeito Gustavo Mendanha entrou no centro de uma investigação de grande escala conduzida pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, que apura um suposto esquema de corrupção, fraudes contratuais e lavagem de dinheiro na saúde pública.
O foco das apurações é a atuação do Instituto Brasileiro de Gestão Hospitalar, organização social responsável pela administração do HMAP até meados de 2022. Segundo os investigadores, a entidade teria sido utilizada como base para um esquema estruturado de desvio de recursos públicos, especialmente durante os anos mais críticos da pandemia da Covid-19.
De acordo com as informações reunidas na chamada Operação Sepse, contratos de gestão de leitos de UTI teriam sido direcionados de forma fraudulenta para empresas previamente escolhidas. Em troca, os empresários beneficiados repassariam cerca de 10% dos valores recebidos como propina à cúpula da organização social.
As suspeitas vão além do superfaturamento. A investigação detalha um sofisticado mecanismo de lavagem de dinheiro, com uso de empresas de fachada, contratos fictícios e movimentações financeiras complexas para dificultar o rastreamento dos valores desviados. Entre as práticas identificadas estão transferências sucessivas entre contas, saques fracionados em espécie, que ultrapassaram R$ 1,5 milhão em um dos casos, e a utilização de “laranjas”, incluindo familiares e pessoas ligadas aos investigados.
Raiz do esquema remonta à pandemia
As origens do caso estão ligadas a investigações iniciadas ainda durante a pandemia, quando o sistema de saúde operava sob forte pressão. A Polícia Civil de Goiás foi a primeira a identificar indícios de irregularidades, ao deflagrar a Operação Parasitas, que investigava fraudes no fornecimento de insumos hospitalares.
Na ocasião, a apreensão de cheques milionários em poder de operadores financeiros levantou suspeitas sobre a existência de um esquema mais amplo, envolvendo também a contratação de serviços médicos. A partir daí, o caso evoluiu e passou a incluir a análise de contratos públicos e movimentações financeiras ligadas à gestão do HMAP.
Com a identificação de recursos federais do Sistema Único de Saúde (SUS) entre os valores investigados, o caso foi encaminhado à esfera federal, consolidando a atuação conjunta entre o MPF, a PF e a Controladoria-Geral da União.
Estratégia jurídica e avanço das investigações
Ao longo do processo, houve um entrave jurídico após o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) considerar que parte das provas iniciais havia sido obtida por um juízo incompetente. Para evitar a anulação total da investigação, o Gaeco adotou uma estratégia que incluiu o arquivamento do inquérito original e a abertura de um novo procedimento, com base em provas consideradas autônomas e obtidas por meios legais.
A partir disso, foram autorizadas quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático, permitindo aos investigadores mapear com precisão o fluxo do dinheiro e identificar a estrutura da suposta organização criminosa.
A segunda fase da Operação Sepse, deflagrada recentemente, cumpriu mandados de busca e apreensão, além de medidas de bloqueio de bens e valores dos investigados.
Posicionamento oficial
Em nota, a Secretaria de Saúde de Aparecida de Goiânia afirmou que não é alvo das investigações e destacou que a atual gestão não possui relação com os fatos apurados. O órgão também informou que a organização social responsável pelo HMAP teve suas contas auditadas por órgãos de controle.
Impacto e próximos passos
O caso expõe um cenário crítico sobre o uso de recursos públicos na saúde, especialmente em um período marcado por emergência sanitária. As investigações seguem em andamento na Justiça Federal e não estão descartados novos desdobramentos.
Enquanto isso, permanece a expectativa por responsabilizações e esclarecimentos sobre um possível esquema que, segundo as autoridades, pode ter desviado milhões de reais que deveriam ter sido destinados ao atendimento da população.
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