Esposa, filha, genros e cunhado ocupavam metade das secretarias municipais mesmo sem qualificação técnica; juiz aponta improbidade administrativa e determina punições ao prefeito Zé Carlos

Uma decisão da Justiça colocou a pequena cidade de Água LimpaGO no centro de um escândalo político que mistura nepotismo, aparelhamento da máquina pública e nomeações familiares em massa dentro da prefeitura.

O prefeito Zé Carlos, filiado ao União Brasil, foi condenado por improbidade administrativa após nomear parentes para comandar cinco das dez secretarias municipais da cidade. A sentença, assinada pelo juiz Raígar Nascimento Borges, acolheu denúncia apresentada pelo Ministério Público de Goiás e apontou ausência de qualificação técnica mínima dos familiares escolhidos para ocupar cargos estratégicos da administração municipal.

Na prática, metade da estrutura de primeiro escalão da prefeitura ficou concentrada nas mãos da própria família do prefeito.

Entre os nomeados estavam a esposa, a filha, dois genros e o cunhado do chefe do Executivo municipal.

A decisão judicial teve forte repercussão porque, segundo o magistrado, parte dos parentes nomeados sequer possui formação compatível com a responsabilidade das funções exercidas. Em alguns casos, os ocupantes das secretarias municipais têm apenas o ensino fundamental incompleto.

A sentença descreve um cenário considerado grave dentro da administração pública de uma cidade com pouco mais de dois mil habitantes.

A primeira-dama, Maria Aparecida da Silva, foi nomeada secretária municipal de Assistência Social. Segundo a decisão, ela cursou apenas até o 5º ano do ensino fundamental e atualmente está matriculada na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Outro nome citado na condenação é Wueverton Luiz Ferreira de Paiva Matos, genro do prefeito e escolhido para comandar a Secretaria de Finanças. Conforme apontado pelo juiz, ele possui apenas ensino médio completo e iniciou o curso de Gestão Pública apenas em 2025.

O segundo genro do prefeito, Marcus Vinícius de Castro Oliveira, assumiu a Secretaria de Urbanismo. De acordo com a sentença, ele também possui apenas ensino fundamental incompleto e frequenta atualmente curso da EJA.

Já José Geraldo Correia de Lima, cunhado do prefeito e nomeado secretário de Agricultura, teria estudado somente até o 4º ano do ensino fundamental.

A filha do prefeito, Camila Silva, foi nomeada secretária de Educação. Segundo a decisão judicial, ela possui ensino médio completo e cursa Gestão Pública.

O caso ganhou enorme repercussão porque a Justiça entendeu que as nomeações violaram princípios básicos da administração pública, especialmente os critérios de moralidade, impessoalidade e eficiência.

Embora cargos de natureza política, como secretarias municipais, permitam nomeações de confiança, o entendimento do magistrado foi de que houve abuso da estrutura pública em benefício familiar, agravado pela ausência de qualificação técnica dos nomeados.

A sentença determinou a exoneração dos familiares e impôs punições ao prefeito.

Entre elas, Zé Carlos foi condenado ao pagamento de multa equivalente a dez vezes o valor da remuneração recebida pelos agentes envolvidos à época das nomeações.

Além disso, o prefeito também foi proibido de contratar com o poder público ou receber benefícios fiscais e incentivos pelo prazo de dois anos, inclusive por meio de empresas.

Nos bastidores políticos da região, a decisão provocou desgaste imediato na gestão municipal.

A situação gerou críticas principalmente porque Água Limpa possui uma estrutura administrativa pequena, o que torna ainda mais visível a concentração familiar dentro da prefeitura.

O episódio reacendeu o debate sobre nepotismo em pequenas cidades do interior, onde secretarias municipais frequentemente acabam ocupadas por parentes próximos de prefeitos e aliados políticos.

Mesmo após a condenação, até esta sexta-feira, os familiares ainda apareciam no site oficial da prefeitura como responsáveis pelas pastas municipais.

A gestão de Zé Carlos ainda não havia se pronunciado oficialmente sobre a decisão judicial até a última atualização do caso.

Nos bastidores do meio político goiano, a avaliação é de que a sentença pode abrir precedente importante para outras ações envolvendo nomeações familiares em administrações municipais do estado.

A decisão também aumenta a pressão sobre prefeitos do interior que utilizam cargos estratégicos como extensão política da própria família.

Deixe um comentário