Aplicação realizada em 2024 entrou na mira de órgãos de controle e da Polícia Federal; caso envolve ex-prefeito, ex-secretário, ex-presidente da previdência municipal e chega às investigações sobre Daniel Vorcaro
A aplicação de R$ 40 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores de Aparecida de Goiânia (AparecidaPrev) em letras financeiras do Banco Master se transformou em um dos casos financeiros mais graves da história recente do município. O episódio, que começou como uma operação de investimento realizada em 2024, hoje passa por investigações e apurações de diferentes órgãos e alcançou a Polícia Federal.
O dinheiro foi aplicado em 6 de junho de 2024, quando Aparecida de Goiânia era administrada pelo então prefeito Vilmar Mariano. Segundo informações declaradas pelo próprio instituto ao Ministério da Previdência e reveladas pelas investigações, foram adquiridos R$ 40 milhões em letras financeiras do Banco Master.
A Polícia Federal avançou sobre o caso e, conforme apuração divulgada pela CNN Brasil em fevereiro de 2026, Vilmar Mariano e Einstein Paniago, ex-secretário municipal e ex-presidente do AparecidaPrev, passaram a ser investigados no contexto da aplicação. A PF apura as circunstâncias em que o dinheiro da previdência dos servidores foi direcionado ao Master e possíveis tratativas para investimentos ainda maiores.
Vilmar Mariano nega participação direta na operação. Em manifestação a uma entrevista, o ex-prefeito afirmou que não autorizou nem deu anuência à aplicação dos R$ 40 milhões.
Einstein, Robes e a preparação da operação
Documentos apresentados pela atual direção do AparecidaPrev à Câmara Municipal revelam que as tratativas começaram meses antes da transferência.
Em fevereiro de 2024, o então presidente do instituto, Robes Venâncio, e Einstein Paniago solicitaram estudos sobre letras financeiras do Banco Master. Naquele período, chegou a ser discutida uma aplicação de R$ 50 milhões.
O Conselho Municipal de Previdência chegou a rejeitar uma alteração na Política de Investimentos necessária para permitir aplicações no Master em razão da classificação da instituição. Posteriormente, a política foi modificada.
Em junho veio a operação.
Segundo a presidente do AparecidaPrev, Márcia Tinoco, em apresentação oficial realizada na Câmara, os R$ 40 milhões foram aplicados com autorização do então presidente Robes Venâncio sem que o Conselho fosse comunicado. A atual direção sustenta ainda que, em 6 de junho, tanto a presidência quanto o Comitê de Investimentos tinham conhecimento de fragilidades relacionadas ao banco.
Robes, portanto, aparece diretamente na reconstrução administrativa da operação e nas denúncias encaminhadas aos órgãos de controle. Até o momento, porém, as fontes públicas consultadas não permitem afirmar que ele tenha a mesma condição formal de investigado pela PF atribuída a Vilmar e Einstein.
Conselho descobriu aplicação meses depois
Outro elemento chama atenção.
De acordo com o relato oficial apresentado à Câmara, somente em setembro de 2024 um integrante do Conselho tomou conhecimento da aplicação ao consultar informações disponibilizadas na internet.
Em 24 de setembro, a assessoria de investimentos posicionou-se contra a operação e sugeriu a venda dos títulos ao Banco do Nordeste. O Conselho passou então a discutir eventual responsabilização e, em outubro, o Comitê de Investimentos voltou a tratar da tentativa de saída da operação.
Ministério Público abriu Inquérito Civil
O caso também chegou formalmente ao Ministério Público de Goiás.
A 18ª Promotoria de Justiça de Aparecida de Goiânia instaurou o Inquérito Civil Público, Autos Extrajudiciais nº 202500202984, vinculado à Portaria nº 2025012690163.
Em 27 de novembro de 2025, foi expedida a Recomendação Administrativa nº 2025012707213, direcionada ao prefeito Leandro Vilela. O documento trata expressamente de possíveis “irregularidades/ilegalidades” relacionadas à aplicação dos aproximadamente R$ 40 milhões do regime próprio de previdência em letras financeiras do Banco Master.
A atual gestão municipal passou a atuar para levar o episódio aos órgãos de fiscalização. Segundo Márcia Tinoco, depois de identificar inconsistências nas atas, ela comunicou o prefeito Leandro Vilela e recebeu autorização para encaminhar denúncias ao Ministério Público, Ministério da Previdência e Tribunal de Contas dos Municípios.
O MP recomendou medidas para tentar proteger o patrimônio previdenciário, reforçar regras de rating, liquidez, autorização dos conselhos, auditoria e compliance, além do acompanhamento público do chamado “Caso Banco Master”.
Daniel Vorcaro e o alcance nacional do Master
O episódio de Aparecida está inserido em uma investigação muito maior envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro.
No braço goiano revelado pela imprensa, investigadores passaram a analisar inclusive relações entre agentes políticos locais e Vorcaro. A CNN informou que elementos obtidos nas investigações indicariam que Aparecida tentou aplicar valores superiores aos R$ 40 milhões efetivamente investidos.
Isso amplia a pergunta central: por que recursos previdenciários de servidores de Aparecida foram direcionados ao Banco Master e quem efetivamente participou de cada etapa da decisão?
Dois prefeitos, duas gestões
O caso atravessa politicamente duas administrações.
A aplicação ocorreu durante o governo de Vilmar Mariano, em 6 de junho de 2024. Vilmar nega ter autorizado ou participado diretamente da decisão.
Já na gestão de Leandro Vilela, iniciada em janeiro de 2025, a nova direção do AparecidaPrev afirma ter identificado as possíveis irregularidades e levado o caso aos órgãos de controle. O próprio Leandro tornou-se destinatário da recomendação formal do Ministério Público para adoção de providências.
Vereadores cobram respostas
O escândalo também chegou com força à Câmara Municipal.
Foi por requerimento do vereador Isaac Martins que a presidente Márcia Tinoco compareceu à Câmara em 8 de dezembro de 2025 para apresentar a cronologia da operação. Isaac afirmou, naquela ocasião, que as informações apresentadas indicavam manipulações internas para permitir que a aplicação fosse realizada mesmo diante das restrições existentes.
O vereador Felipe Cortez também passou a defender a instalação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar os R$ 40 milhões. Em novembro de 2025, Cortez afirmou ter apoio de 14 parlamentares para a iniciativa. Após o avanço das investigações da PF em fevereiro de 2026, a discussão sobre a CEI voltou a ganhar força.
Na audiência da Câmara, vereadores como André Fortaleza, Lipe Gomes, Roberto Chaveiro, Tales de Castro e Dieyme Vasconcelos também fizeram questionamentos sobre responsabilidades, autorizações, riscos e possibilidades de recuperação dos recursos.
Maior escândalo financeiro da história de Aparecida?
Pelo valor envolvido, pela origem previdenciária dos recursos, pela atuação do Ministério Público e dos órgãos de controle e pelo avanço da investigação da Polícia Federal, o episódio já pode ser considerado um dos maiores escândalos financeiros da história recente de Aparecida de Goiânia.
Classificá-lo definitivamente como “o maior” exigiria comparação documental com todos os casos financeiros já registrados no município. Mas poucas controvérsias locais reuniram simultaneamente R$ 40 milhões de recursos previdenciários, investigação federal, inquérito civil do Ministério Público, questionamentos sobre decisões internas e uma instituição financeira que se tornou centro de um escândalo nacional.
Hoje, o AparecidaPrev busca recuperar o dinheiro. A direção informou à Câmara que o instituto se habilitou como credor e que os R$ 40 milhões, considerados os juros, aproximavam-se de R$ 47 milhões.
Enquanto a investigação avança, permanecem perguntas que precisam ser respondidas: quem decidiu efetivamente colocar o dinheiro dos servidores no Banco Master? Por que a aplicação ocorreu mesmo diante das resistências internas? Quem sabia da operação? Houve interferência externa? E será possível recuperar integralmente o patrimônio previdenciário?
As respostas dependerão da conclusão das investigações. Até lá, os citados devem ter assegurados o contraditório e a presunção de inocência, e eventuais responsabilidades criminais, civis ou administrativas somente podem ser atribuídas definitivamente pelas autoridades competentes.

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