Durante entrevista ao Jornal da Rádio Bons Ventos 107,3 FM, educadora contou que os quatro jovens assassinados em 2013 eram seus alunos e falou sobre os desafios de trabalhar com estudantes da periferia
A professora Wenia Cristina relembrou, durante entrevista ao Jornal da Rádio Bons Ventos 107,3 FM, apresentado por Danny Souza, a chacina ocorrida na Serra das Areias, em Aparecida de Goiânia, em 19 de agosto de 2013. Em um dos momentos mais emocionantes da conversa, a educadora revelou que os quatro adolescentes assassinados eram seus alunos.
“Eram todos meus alunos”, afirmou Wenia, ao recordar a tragédia. Segundo ela, dois dos estudantes eram da turma do 1º ano A e outros dois pertenciam ao 1º ano C. A lembrança, mesmo anos depois, permanece marcada em sua trajetória profissional.
Moradora de uma realidade próxima à vivenciada por muitos dos estudantes com quem trabalha, Wenia afirma que atuar em regiões periféricas exige mais do que transmitir conteúdo. Para ela, a construção de vínculos e a capacidade de compreender a realidade dos alunos são fundamentais para enfrentar os desafios impostos pela violência e pela vulnerabilidade social.
“Eu sou de periferia, então o meu desafio maior é realmente contra a criminalidade e ser realmente uma pessoa que possa ter uma amizade com esses alunos”, relatou.
A professora conta que trabalha em escolas de periferia desde meados de 2010 e que, ao longo desse período, perdeu outros alunos para a criminalidade. Para ela, um dos principais desafios da educação é fazer com que crianças e adolescentes enxerguem na escola uma possibilidade concreta de transformação e de construção de um futuro diferente.
Wenia também destaca que muitos estudantes têm dificuldade para compreender o impacto que a educação pode ter em suas vidas. Segundo ela, alguns jovens são atraídos pela ideia de obter dinheiro rapidamente e não conseguem perceber, naquele momento, o potencial de longo prazo proporcionado pelos estudos.
Nesse cenário, a educadora acredita que a postura do professor pode fazer diferença. “Todas as vezes que você chega na sala de aula com um brilho nos olhos, faz com que eles se transformem”, afirmou.
Ao longo da carreira, Wenia diz ter recebido relatos de ex-alunos que atribuem à professora parte da motivação para seguir novos caminhos. Para ela, esse reconhecimento é uma das maiores recompensas da profissão.
“Nada paga”, declarou, emocionada ao falar sobre os estudantes.
A professora também defende que os educadores enxerguem cada aluno para além da realidade presente. Em suas aulas, costuma lembrar aos estudantes que, embora sejam crianças ou adolescentes naquele momento, podem ocupar importantes posições na sociedade no futuro.
“Você vai ser médico, você vai ser advogado, você vai ser juiz”, costuma dizer aos alunos.
Para Wenia, o respeito e o acolhimento são essenciais nesse processo. Ela afirma que procura ouvir as histórias dos estudantes e compreender suas dificuldades, criando uma relação que ultrapassa a sala de aula.
A educadora reconhece, porém, que o trabalho enfrenta limitações estruturais e que ainda há muito a ser feito para garantir melhores condições nas escolas. Mesmo diante das dificuldades, ela considera que investir na educação, especialmente nas periferias, é uma das formas mais importantes de oferecer novas perspectivas às crianças e adolescentes.
A lembrança dos quatro alunos mortos na chacina da Serra das Areias, portanto, permanece não apenas como uma memória dolorosa, mas também como parte da trajetória de uma professora que escolheu transformar a sala de aula em espaço de acolhimento, esperança e construção de novas oportunidades.
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