Amostras de pelo menos 24 tipos de vírus foram retiradas de laboratório de alta segurança e levadas para outros espaços dentro da universidade
Um caso que parece roteiro de filme, mas é real, colocou a Universidade Estadual de Campinas no centro de uma investigação que mistura ciência, segurança e crime. O furto de amostras biológicas de um laboratório de alta contenção revelou uma movimentação irregular de pelo menos 24 tipos diferentes de vírus dentro da própria universidade.
O material saiu de um laboratório NB-3, um dos níveis mais altos de biossegurança, no Instituto de Biologia, e foi levado para outros espaços, incluindo a Faculdade de Engenharia de Alimentos. Esse tipo de ambiente é projetado justamente para evitar qualquer risco de exposição, o que torna o caso ainda mais delicado.
Entre os vírus envolvidos estão dengue, chikungunya, zika, herpes, o vírus Epstein-Barr e até coronavírus humano. Também foram identificadas 13 cepas que afetam animais, ampliando o alcance e a complexidade do material manipulado.
A suspeita recai sobre a professora Soledad Palameta Miller e o marido dela, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller. Segundo as investigações, o casal teria acessado o laboratório diversas vezes, inclusive em horários incomuns, retirando amostras sem autorização.
O caso começou a ser descoberto no dia 13 de fevereiro, quando uma pesquisadora percebeu o desaparecimento de caixas com material biológico. Nos dias seguintes, imagens de segurança mostraram movimentações suspeitas, com entradas e saídas fora do padrão e transporte de objetos.
Pouco tempo depois, outra cientista também notou que amostras haviam sumido. O que parecia um erro pontual rapidamente ganhou dimensão maior. Não era extravio, era retirada sistemática.
A situação chegou à direção do Instituto de Biologia em março e, diante da gravidade, foi encaminhada à reitoria. A universidade acionou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a Polícia Federal, já que o caso envolve riscos à saúde pública e possíveis crimes ligados à biossegurança.
No dia 21 de março, a Polícia Federal realizou buscas tanto na universidade quanto na casa dos investigados. Parte do material foi encontrada dentro da própria Unicamp, armazenada em um biofreezer na Faculdade de Engenharia de Alimentos.
Outro ponto que pesa na investigação é o comportamento após a operação. Há indícios de que a professora teria tentado ocultar provas, descartando material biológico e alterando rótulos de identificação, o que pode comprometer rastreabilidade e controle, dois pilares essenciais em ambientes desse tipo.
Apesar do impacto da notícia, a direção do Instituto de Biologia afirmou que não há risco generalizado de contaminação. Isso porque, quando armazenados corretamente, em recipientes vedados e sob congelamento, esses vírus permanecem controlados.
Ainda assim, o episódio levanta um debate inevitável. Até que ponto os protocolos de segurança estão sendo seguidos e fiscalizados dentro de ambientes altamente sensíveis?
Soledad chegou a ser presa, mas foi liberada provisoriamente. Ela deve responder por transporte irregular de organismo geneticamente modificado, fraude processual e exposição de risco à saúde pública. Até o momento, a defesa dos investigados não se manifestou.
Em nota, a Universidade Estadual de Campinas classificou o episódio como isolado, atribuindo o caso a circunstâncias atípicas.
Mesmo sendo tratado como algo pontual, o impacto é grande. Porque quando o assunto envolve vírus, laboratório e segurança, qualquer falha deixa de ser pequena e passa a ser um alerta sério.

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