Personagem reflete novos caminhos para a representatividade negra na dramaturgia brasileira

Tatiana Tibúrcio revela mais detalhes de importância de seu papel em Garota do Momento – Fotos: Selmy Yassuda

Tatiana Tibúrcio, aos 47 anos, vive um momento de transformação com sua atuação como Vera na novela das 6, Garota do Momento. Para a atriz, o papel representa um canal de mudanças no imaginário coletivo sobre a representação de pessoas negras na mídia. Diferente do estereótipo historicamente associado a personagens negros, Vera é uma mulher com sonhos, objetivos próprios e uma identidade que vai além de sua função como funcionária de uma família abastada.

Aprendo com o passado a não repetir ideias imaginadas para mim como mulher preta e consagrar comportamentos que, por anos, foram invisibilizados para os meus e as minhas“, declarou Tatiana em entrevista exclusiva.


Humanidade e individualidade como eixo central

Tatiana acredita que personagens como Vera ajudam a ressignificar o imaginário das pessoas negras na dramaturgia. “Sempre vimos figuras como ela num lugar de subserviência, de anulação da própria existência em prol do outro. Quando você tem a Vera numa construção de individualidade, você dá a ela humanidade. O que nos torna humanos são nossos desejos, sonhos, vontades, ambições, referências e descendências“, destacou.

Um dos momentos mais marcantes da novela ocorre quando Vera fala sobre abdicar de sua vida pela autonomia da patroa, uma fala que ecoa a realidade de muitas mulheres negras ao longo da história. “Essa cena foi um presente, poder falar por meio da Vera o que muitas outras tinham o desejo de dizer e não tiveram oportunidade. É como se estivéssemos rompendo as correntes dentro da dramaturgia”, afirmou.


Um espelho da sociedade e das pequenas revoluções

Ambientada na década de 1950, a novela apresenta personagens que desafiavam as normas da época, algo que Tatiana considera essencial para inspirar o público contemporâneo. “Esses personagens sempre existiram na vida real. Eles faziam suas pequenas revoluções, batiam de frente com uma estrutura estabelecida. Se eles não estivessem lá, não estaríamos aqui hoje refletindo.”

Para a atriz, a dramaturgia tem o papel de revelar outras faces do Brasil, rompendo com a ótica padrão e dominante que frequentemente guia as narrativas.


Uma homenagem à história familiar

Tatiana reconhece na personagem traços das mulheres de sua própria família. “Minha mãe e minhas tias trabalharam em casas de família por muitos anos e nunca corresponderam a essa visão subserviente. Apesar de carregarem o nome de domésticas, nunca foram domesticadas“, afirmou com orgulho. Ela relata que, ao assistir à novela, suas parentes se reconhecem na personagem: “Quando elas assistem à novela, dizem ‘eu me vejo’, é um regozijo.”


Quebrando o imaginário estabelecido

Tatiana espera que Vera ajude o público a enxergar personagens negros, indígenas, nordestinos e outros fora dos padrões de privilégio em novos papéis e com naturalidade. “Que não achem estranho a Vera não estar com vassoura na mão, servindo a mesa, com um avental. Que ela seja vista com naturalidade”, concluiu.

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