Seis meses após violência, vítima cobra justiça, relata descumprimentos e questiona eficácia das medidas protetivas

Seis meses depois de denunciar o ex-companheiro por agressão, a advogada Carolina Câmara Carvalho Bandeira escancara uma realidade que muita gente prefere não encarar: denunciar nem sempre é sinônimo de proteção. Em Goiânia, ela afirma viver com medo constante, mesmo após acionar todos os mecanismos legais disponíveis.

“Eu fiz tudo. Denunciei, pedi ajuda, confiei no sistema. E mesmo assim continuo com medo.” O desabafo não é isolado, ele carrega o peso de uma estrutura que, na prática, muitas vezes falha em proteger quem mais precisa.

Segundo Carolina, a violência não começou de forma física. Como em muitos casos, veio em etapas: primeiro o psicológico, depois o controle, os xingamentos e, por fim, a agressão. Um ciclo que se repete silenciosamente em milhares de relacionamentos.

“Não existe alguém que começa matando. A violência vai escalando”, relatou.

O episódio que motivou a denúncia aconteceu após uma discussão. Ela conta que foi empurrada da cama, caiu e sofreu ferimentos na perna. Vizinhos ouviram os gritos e acionaram a polícia. Na ocasião, o ex-companheiro foi preso em flagrante.

O Ministério Público denunciou o investigado por lesão corporal. O processo segue em andamento, com audiência marcada para maio. A defesa, por sua vez, nega irregularidades e afirma que todas as acusações serão esclarecidas na Justiça.

Mas o ponto mais sensível da história não está apenas na agressão — está no que veio depois.

Mesmo com medida protetiva, tornozeleira eletrônica e botão do pânico, Carolina afirma que a sensação de insegurança nunca deixou de existir. Segundo ela, houve diversos registros de suposto descumprimento das medidas, além de alertas frequentes do dispositivo de emergência, inclusive durante a madrugada.

“O que era para me dar segurança virou um instrumento de terror psicológico.”

A fala levanta um questionamento direto: até que ponto as medidas protetivas estão funcionando de fato?

De um lado, o sistema afirma que não houve comprovação de descumprimento. Do outro, a vítima relata episódios constantes de medo, alertas e instabilidade emocional. O contraste escancara um abismo entre o que está no papel e o que acontece na vida real.

A defesa de Gabriel Bessa Braga informou que os registros relacionados a supostas violações foram arquivados por falta de provas e que não houve aproximação voluntária ou contato indevido comprovado.

Ainda assim, a sensação de impunidade permanece.

O caso reacende um debate urgente e incômodo: o sistema protege de verdade ou apenas reage depois que algo mais grave acontece?

Goiás, assim como outros estados, já registrou aumento nos casos de feminicídio e violência doméstica nos últimos anos. E histórias como a de Carolina colocam pressão sobre instituições, autoridades e políticas públicas.

Ao tornar o caso público, a advogada deixa claro que não busca apenas justiça individual, mas visibilidade para um problema estrutural.

“Não é falta de denúncia. Não é falta de prova. É um sistema que falha.

A audiência está marcada. A decisão ainda virá. Mas, até lá, o medo continua sendo parte da rotina.

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