Veterano relata atuação sem proteção no maior acidente radiológico do Brasil e cobra reconhecimento histórico
Em meio às lembranças que o tempo não apaga, um relato forte e necessário ressurge para marcar um dos episódios mais impactantes da história recente de Goiás: o Acidente com Césio-137. Mais do que um desastre ambiental e de saúde pública, ele deixou marcas profundas em quem esteve na linha de frente, muitas vezes sem qualquer noção do risco.
Presidente da Associação dos Veteranos do Estado de Goiás, o Coronel Almeida revive uma experiência que mistura dever, desconhecimento e, hoje, indignação. Ainda como aluno oficial, em 1986, ele foi designado para atuar no policiamento de segurança das equipes responsáveis pela retirada dos rejeitos radioativos. Na época, não havia clareza sobre o que realmente estava acontecendo.
“Ninguém sabia do que se tratava. Nem policiais, nem bombeiros, nem qualquer profissional envolvido. A gente fazia a segurança, acompanhava caminhões carregados de rejeitos até o depósito em Abadia de Goiás, sem ter noção do perigo”, relembra.
O cenário era de total improviso diante de uma ameaça invisível. A falta de informação e de protocolos adequados expôs dezenas de profissionais a níveis perigosos de radiação. O que parecia apenas mais uma missão de rotina rapidamente se transformou em uma sentença silenciosa para muitos.
Com o passar do tempo, vieram as consequências. Doenças começaram a surgir, diagnósticos graves se tornaram frequentes e, pouco a pouco, companheiros de farda foram partindo. “Foram dezenas de parceiros que já morreram. Pessoas que trabalharam ali, que cumpriram seu dever, mas que pagaram um preço muito alto”, afirma.
Hoje, quase quatro décadas depois, restam poucos sobreviventes para contar essa história. E junto com a memória, vem também o sentimento de que muito ainda precisa ser dito e reconhecido.
O coronel também comenta sobre a produção da Netflix que retrata o acidente. Apesar de considerar importante a iniciativa de manter viva a história, ele aponta falhas na forma como o episódio foi representado. “O filme conta a história, mas poderia ter valorizado mais quem realmente viveu aquilo. Temos pessoas aqui em Goiás que ainda podem dar esse testemunho”, destaca.
A crítica vai além da escolha de elenco. Para ele, há uma distância entre a realidade enfrentada pelos profissionais da época e a forma como isso é apresentado ao público. A ausência de reconhecimento mais amplo aos envolvidos diretos no controle da crise reforça uma sensação de invisibilidade.
O acidente com o Césio 137 não foi apenas um evento isolado. Ele escancarou fragilidades na gestão de riscos, na comunicação pública e na proteção dos trabalhadores. E, segundo os veteranos, ainda hoje deixa lições que não podem ser ignoradas.
Ao revisitar essa história, o que se busca não é apenas lembrar, mas provocar reflexão. Sobre responsabilidade, sobre cuidado com quem esteve na linha de frente e, principalmente, sobre como tragédias como essa não podem cair no esquecimento ou ser tratadas de forma superficial.
Porque, para quem viveu aquele momento, o Césio 137 não ficou no passado. Ele segue presente, silencioso e profundamente marcante.

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